Por que nós passamos pelo luto?
O luto é uma jornada pessoal e única, marcada por uma profunda sensação de perda. Sem as ferramentas certas, o luto pode nos levar a um estado de isolamento, ansiedade prolongada e dificuldade em retomar as rédeas da nossa vida.
A longo prazo, o luto não processado pode afetar profundamente nossa saúde mental e bem-estar, dificultando a capacidade de se reconectar com a alegria e o propósito da vida.
Além da dor pela perda de entes queridos, enfrentamos o luto nas sombras de sonhos desfeitos e expectativas não realizadas. Esse tipo de luto, muitas vezes invisível, carrega uma carga emocional profunda, marcando nossas vidas com momentos de reflexão e necessidade de reajuste.
O que é o luto e qual o seu processo?
Frequentemente associamos luto à morte de alguém que se ama, pois, a morte é o rompimento mais definitivo de um laço de amor que podemos viver.
No entanto, o processo de luto também se dá por outros motivos como:
- Separação.
- Perda do animal de estimação.
- Perda do sonho.
- Por diagnósticos de doenças.
Quando a estabilidade física é ameaçada ou em casos onde o corpo foi realmente afetado por algum tipo de intervenção, como a perda de um membro, cicatrizes.
Além disso, o luto também pode acontecer, quando uma pessoa perde seu emprego ou vive uma falência financeira, tendo sua vida modificada e planos futuros ameaçados.
Nesse sentido, o processo de luto é o conjunto de reações, sentimentos e experiências de quem perde algo ou alguém.
Luto é uma palavra que carrega o peso do mundo em suas letras. É a resposta emocional natural que experienciamos frente à perda de alguém ou de algo significativo em nossas vidas. Mas, o que realmente significa passar pelo luto?
O luto é mais do que simplesmente sentir saudade; é um complexo processo de cura que nos permite enfrentar, compreender e, eventualmente, aceitar a perda.
O processo de luto é composto por vários sentimentos que se misturam e intercalam de forma pouco organizada, podendo provocar:
- Instabilidade emocional, cognitiva e orgânica de quem passa pelo processo.
O que é o luto antecipatório?
Luto antecipatório é uma forma de luto que ocorre antes de uma perda iminente, geralmente associado à expectativa da morte de um familiar devido a uma doença grave ou terminal.
No entanto, não se limita apenas a perdas relacionadas à morte; pode também envolver a antecipação de qualquer perda significativa, como o fim de um relacionamento, a partida de um filho para a universidade, ou até mesmo a perda de independência devido a uma doença crônica.
Preparação emocional:
Uma das funções do luto antecipatório é permitir que indivíduos se preparem emocionalmente para a perda, processando previamente alguns dos sentimentos de luto e começando a se despedir.
Sentimentos:
Pode envolver emoções complexas, como tristeza, medo, ansiedade, culpa e, às vezes, até alívio, especialmente após uma longa doença.
Como lidar:
Oferece a chance de resolver questões pendentes com o ente querido, expressar sentimentos não ditos, e compartilhar memórias e agradecimentos, o que pode não ser possível após a perda.
Desafios de reconhecimento:
Frequentemente, o luto antecipatório não é reconhecido ou validado pela sociedade da mesma forma que o luto após a perda, o que pode fazer com que aqueles que o experienciam se sintam isolados ou incompreendidos.
Como identificar os sintomas do luto?
Vamos falar um pouco sobre os sintomas do luto, lembrando que pode variar muito de pessoa para pessoa, cada um reage de uma maneira, mas abordaremos alguns deles.
Emocionais:
- Tristeza profunda:
Dor emocional, sensação de vazio ou desesperança.
- Sentimento de vazio ou desesperança:
Falta de esperança, otimismo e motivação, sentir que não há soluções ou saídas para seus problemas ou situações de vida.
- Culpa:
Não atendido às próprias expectativas ou às dos outros.
- Raiva:
Percepções de ameaça, injustiça, frustração ou dano.
- Ansiedade:
Sentimentos de preocupação, nervosismo ou medo.
- Depressão:
Sentimentos persistentes de tristeza.
- Negação:
Recusa a reconhecer ou aceitar a realidade de uma situação dolorosa, estressante ou ameaçadora.
- Desamparo:
Sentir que não tem controle sobre as situações em sua vida e é incapaz de agir para mudá-las ou melhorá-las.
- Saudade:
Sentimento agridoce de falta, anseio ou nostalgia.
- Descrença:
Recusa ou incapacidade de aceitar que algo seja verdadeiro ou real.
É importante lembrar que o luto é um processo individual, e não há maneira “certa” de viver essa experiência. Reconhecer e aceitar esses sentimentos como parte do processo de luto é crucial para a cura emocional.
Físicos:
- Fadiga ou exaustão
- Mudanças no apetite
- Insônia
- Dormir mais que o habitual
- Dores e desconfortos sem causa específica
- Sensação de peso no peito ou estômago
- Náuseas
- Problemas digestivos
- Sensibilidade a doenças
- Mudanças na pressão arterial ou batimentos cardíacos
- Agitação
- Tremores
- Tontura
Alguns podem passar por todos esses sintomas, enquanto outros podem enfrentar apenas alguns, e a intensidade e duração desses sentimentos podem variar. Esses sintomas físicos são uma resposta natural do corpo ao estresse intenso e à turbulência emocional causada pela perda.
É crucial reconhecer que essas reações são parte do processo de luto e procurar formas saudáveis de cuidado pessoal durante esse período. Além disso, é importante consultar um profissional de saúde se os sintomas físicos se tornarem severos ou persistentes, para garantir que não haja outras condições médicas necessitando de atenção.
O que influencia no processo de luto?
- A personalidade do enlutado.
Indivíduos mais extrovertidos e afetivos tendem a expor seu sofrimento de maneira mais evidente, enquanto os introvertidos sofrem de forma contida, mais discreta, disfarçando suas dores. Cada um vive a dor ao seu próprio modo e isso não é um problema.
- Suas experiências de vida e perdas anteriores.
Pessoas com histórico de depressão ou de lutos complicados no passado, podem apresentar uma maior probabilidade de ter uma resposta complicada ao luto atual também. As perdas anteriores criam certo medo de futuras perdas e influenciam negativamente na capacidade de fazer novas conexões.
- As circunstâncias da perda.
A morte pode ocorrer de forma inesperada ou já estar sendo “esperada” (doenças fatais). Existem também os casos em que os corpos não são encontrados e a morte permanece incerta e inconclusa. Ainda, existem as perdas múltiplas, quando um acidente mata mais de um membro da mesma família de uma única vez. Também existem as mortes por suicídio ou aquelas em que o enlutado foi direta ou indiretamente responsável, exemplo: em um acidente ou homicídio.
- Momento em que recebeu a notícia.
O indivíduo é capaz de guardar esse momento para sempre. Por isso, é importante que a pessoa que dê a noticia da morte o faça de forma clara, verdadeira e empática/ humana.
- Quão próximo o enlutado era da pessoa que se foi.
A intensidade do luto é determinada pela intensidade da relação entre o falecido e o enlutado, ou seja, quanto mais próximos, mais difícil será a elaboração da perda. O mesmo ocorre em casos de conflitos ou situações inacabadas com a pessoa que se foi.
- A existência ou não de uma rede de apoio social.
A rede de apoio social engloba familiares e amigos, assim como serviços públicos de saúde (SUS, assistência especializada) e um conjunto de ações da sociedade civil (assistência jurídica, apoio psicológico, centros de convivência, entre outros). É importante ter pessoas com quem contar durante o processo e que possam ajudar o enlutado mesmo quando ele não sabe que precisa de ajuda.
Existe um tempo definido para sentir o luto?
Esse aspecto é muito individual, variável, podendo durar meses ou anos, uma vez que está relacionado com:
- A personalidade do enlutado.
- Suas experiências de vida e perdas anteriores.
- As circunstâncias da perda.
- Momento em que recebeu a notícia.
- Quão próximo o enlutado era da pessoa que se foi.
- A existência ou não de uma rede de apoio social.
Entender as fases do luto é essencial para reconhecer que o que sentimos é uma parte natural da recuperação e do crescimento pessoal.
Quais são as fases do luto?
Exploremos juntos essas etapas, lembrando que cada pessoa vivencia o luto à sua maneira única.
- Negação:
A primeira reação é negar a realidade da perda.
“Isso não está acontecendo”.
- Raiva:
À medida que a negação começa a desaparecer, a dor da perda surge. Podemos direcionar essa raiva para outras pessoas, objetos ou circunstâncias, mesmo sabendo que a fonte da dor está além do controle.
“Por que isso aconteceu comigo?”.
- Negociação:
A fase de negociação é marcada por tentativas de barganhar, muitas vezes com um poder superior, para tentar alterar a realidade.
“Se eu fizer isso, talvez eu possa ter ele(a) de volta”.
- Depressão:
A depressão reflete a tristeza profunda e a sensação de vazio. Não é uma indicação de doença mental, mas uma resposta à grande perda.
“Eu não sei como seguir em frente”.
- Aceitação:
Reconhecemos que a perda é permanente. Isso não significa estar ‘tudo bem’ com o que aconteceu, mas sim encontrar uma maneira de conviver com essa nova realidade.
“Estou aprendendo a aceitar a perda”.
Atravessar essa fase requer tempo, paciência e, muitas vezes, apoio. Se você está vivenciando o luto, lembre-se de que não está sozinho.
Como passar pelo luto?
De acordo o Psicólogo americano, Willian Worden (2013) existem algumas tarefas que o enlutado deve fazer durante o processo do luto.
- Aceitado a realidade da perda:
Permita-se sentir cada sentimento, seja tristeza, raiva ou confusão, faz parte do processo de cura.
- Elaborar a dor da perda:
É importante que o indivíduo entre em contato com seus sentimentos para, aos poucos, cuidar deles e encontrar um lugar para a saudade que não seja o da dor. Evitar entrar em contato com os sentimentos não ajuda. Como muito na vida, o caminho mais fácil pode ser o mais duro a longo prazo.
- Ajustar-se a um ambiente onde está faltando a pessoa que faleceu
A perda não se refere apenas à ausência da pessoa, mas aos diversos papéis que ela representava na vida do enlutado. Muitas vezes, é preciso colocar dentro de suas atividades o que antes era responsabilidade do outro.
- Reposicionar em termos emocionais a pessoa que faleceu e continuar a vida
Após aceitar que a pessoa se foi, é preciso encontrar uma nova maneira de tê-la em sua vida, mas de forma que lhe permita continuar vivendo, construindo novas relações com outras pessoas e com o mundo, sem ter medo de esquecê-la ou se sentir culpada por estar vivendo e feliz.
Além destas tarefas, sugerimos também:
- Busque suporte:
Estar com amigos, familiares ou grupos de apoio pode fornecer conforto e compreensão. Você não precisa passar por isso sozinho.
- Mantenha rotinas:
Manter sua rotina pode te oferecer uma sensação de normalidade.
- Expresse-se:
Escrever em um diário, criar arte ou praticar outra forma de expressão pode ser uma válvula de escape para seus sentimentos.
- Seja paciente consigo mesmo:
Respeite seu próprio ritmo de cura, um dia de cada vez.
Não consigo superar ou seguir em frente, e agora?
Se você se encontra preso(a) em um estado de luto prolongado, onde a dor impede de seguir em frente, pode ser o momento de buscar ajuda profissional.
O papel da psicoterapia no luto é auxiliar o indivíduo a enfrentar e vivenciar esse processo.
A relação com o Psicólogo pode facilitar uma ressignificação da dor através da expressão dos sentimentos e da possibilidade de colocar em palavras o que está sendo vivido internamente.
Angústias e conflitos conseguem ser trabalhados e refletidos, tornando possível um novo olhar e novos sentidos para essas lembranças e sentimentos.
Além disso, o Psicólogo poderá ajudar a superar o luto com:
- Validação de sentimentos: o luto pode fazer com que você fique com emoções à flor da pele, algumas das quais podem ser surpreendentes ou até mesmo perturbadoras. Um Psicólogo pode ajudá-lo a entender que todas essas emoções são respostas normais à perda.
- Estratégias de enfrentamento personalizadas: cada pessoa vive e processa o luto de maneira diferente. Um psicólogo pode trabalhar com você para desenvolver estratégias de enfrentamento que sejam adequadas às suas necessidades.
- Apoio durante as fases do luto: o luto não é linear e envolve várias fases, desde a negação até a aceitação. Ter o apoio de um Psicólogo durante essas fases pode fornecer conforto e estabilidade, assegurando que você não esteja sozinho em sua jornada.
- Reconstrução da vida: após uma perda, pode parecer que sua vida nunca será a mesma. Embora isso possa ser verdade em certa medida, um psicólogo pode ajudá-lo a reconstruir sua vida de maneira significativa, encontrando novos propósitos e alegrias.
A busca por um Psicólogo é um passo corajoso em direção à cura e ao autoconhecimento.
Permita-se essa oportunidade de encontrar paz e começar o caminho para o bem-estar, você não precisa caminhar sozinho.
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Referências:
IPTC (https://iptc.net.br)
Projeto Acolher (https://www.projetoacolherperdaseluto.com.br/post/a-import%C3%A2ncia-de-validar-a-dor)